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Em preparação à Páscoa, a Via-Sacra Laudato si’

Por Asia Galvani* – Veneza – 23/03/2021
Uma nova leitura à devoção quaresmal da Via-Sacra à luz da Encíclica de Francisco sobre o Cuidado da Casa Comum. Uma iniciativa que nasceu da colaboração, da partilha e da consciência pessoal: um percurso que inclui experiências e reflexões geradas pela necessidade de rezar durante o lockdown por causa da pandemia. Um trabalho conjunto do Movimento Católico Global pelo Clima e da Cube Radio, a emissora radiofônica oficial do Instituto Universitário Salesiano de Veneza e Verona.

O período de lockdown provocou em muita gente uma sensação de solidão, de abandono e de afastamento do grupo de referência. A presença do outro tem sido muitas vezes mediada por uma tela. Assim, durante os meses mais duros de 2020, nasceu a ideia, a partir da base do Movimento Católico Global pelo Clima (WCCM), de desenvolver uma Via-Sacra que pudesse ligar as catorze estações da prática litúrgica com a Encíclica Laudato si’ do Papa Francisco. A intuição central era refazer o caminho de Cristo em direção à sua morte na Cruz e, depois, a Ressurreição para restaurar um lampejo de esperança no futuro. Assim nasceu a “Via-Sacra Laudato si'”.

Equipe da secretaria do Movimento Católico Global pelo Clima

Equipe da secretaria do Movimento Católico Global pelo Clima

A Via-Sacra à luz da Laudato si’

O Movimento Católico Global pelo Clima fez uma nova leitura da prática litúrgica da Via-Sacra à luz da Laudato si’ já durante a Quaresma de 2020. O trabalho nasceu espontaneamente de baixo, da necessidade coletiva de rezar e confiar-se ao Senhor para ter a esperança de superar a situação crítica que o vírus criou em nível planetário já desde março do ano passado. Antonio Caschetto, coordenador dos Círculos Laudato si’ na Itália, testemunha: “houve um grande envolvimento tanto em nível de escritura das meditações quanto em nível de fruição, e o fruto deste compromisso foi o grande número de pessoas que participaram ao vivo, através da web, da prática litúrgica da Via-Sacra. É o início de um caminho comum que continua hoje, um caminho que nasceu na esteira da de Cristo, que com a Cruz sobre os ombros nos deu a salvação”.

As meditações da Via-Sacra inspiradas na Laudato si’ tomaram forma graças à colaboração de numerosas equipes. A sinergia entre o Movimento Católico Global pelo Clima da Itália e da África foi fundamental, apoiada pelo grupo que cuida da comunicação para o Movimento e por muitos animadores e representantes dos vários círculos italianos.

As meditações ligadas às estações individuais foram conectadas aos temas da Laudato si’ e à experiência do momento particular da pandemia, o que levou a uma reflexão sobre a fragilidade e o sofrimento de todo o planeta. As lágrimas enxugadas por Verônica, por exemplo, foram colocadas àquelas do povo sírio, às lágrimas dos pobres. A morte de Cristo na Cruz também levou a refletir sobre as muitas mortes causadas pelo coronavírus, que colocou o mundo de joelhos.

Antonio Caschetto trabalha desde Assis na formação de Animadores Laudato si’ e, além de ser coordenador dos programas italianos do Movimento Católico Global pelo Clima, faz parte de uma equipe internacional de “Eco espiritualidade”. Graças à experiência adquirida nessa área, ele foi capaz de ajudar a coordenar a redação das meditações da Via-Sacra. O objetivo da iniciativa se harmoniza bem com um dos principais convites do Papa na Laudato si’: “tomar dolorosa consciência, ousar, transformar em sofrimento pessoal aquilo que acontece ao mundo e, assim, reconhecer a contribuição que cada um lhe pode dar” (19). É precisamente a escolha de “transformar em uma consciência dolorosa até mesmo o nosso pecado em relação ao planeta”, testemunha Caschetto, “que nos impulsiona mais a ouvir o grito da terra e dos pobres”.

O card. João Braz de Aviz, Antonio Caschetto, Cecilia Dall'Oglio e Tomas Insua

O card. João Braz de Aviz, Antonio Caschetto, Cecilia Dall’Oglio e Tomas Insua

A relação homem-Criação durante a pandemia

A leitura da Laudato si’ na época da pandemia trouxe de volta novas perspectivas que revelam mais uma vez a atualidade e a emergência dos temas propostos pela encíclica. A estigmatização, na Via-Sacra organizada pelo Movimento Católico Global pelo Clima, de práticas econômicas e sociais injustas, e a chamada de atenção para os pobres e as diversas fragilidades que caracterizam os seres humanos são aspectos que podem ajudar a reativar a consciência, na esperança de que possamos entender como mesmo um pequeno gesto individual pode levar a mudanças em nível planetário.

A meditação da última estação enfoca, em particular, a relação do homem com a Criação, uma percepção que mudou significativamente após o período de confinamento dentro das paredes de casa. Do sofrimento emerge também um claro sinal de esperança: “esta epidemia é um verdadeiro rochedo. Devemos tomar nota disso e, ao mesmo tempo”, se lê na meditação, “devemos tirar força deste momento de dificuldade, para que este epílogo seja realmente um novo começo para nós”. O ano difícil que acaba de passar para todos pode ser transformado em uma valiosa lição também em nível de consciência ambiental, um desafio que pode fazer a humanidade evoluir e amadurecer também no que diz respeito ao cuidado da Casa Comum. É necessário voltar a olhar a natureza como uma aliada e não como uma ameaça, e por isso o itinerário litúrgico seguindo a Cruz de Cristo propõe um caminho de reconciliação com nós mesmos e com o que nos rodeia, homens e meio ambiente.

 O criminologista Marco Monzani

O criminologista Marco Monzani

Os crimes contra a natureza

As ações humanas que prejudicam o planeta acabam sendo, em muitos casos, crimes reais também em nível jurídico. Isso é sublinhado pelo professor Marco Monzani, jurista, criminólogo e professor universitário, que comenta a primeira estação da Via-Sacra da seguinte forma: “a indiferença de Pilatos que marca o nosso tempo diante de crimes e injustiças causadas por uma economia extrativista, que está prejudicando nossa Casa Comum e os nossos irmãos e irmãs, é fruto do medo de ir contra a corrente, de se posicionar entre os últimos e com os últimos, porque tomar partido custa muito caro. E assim Pilatos, com o seu silêncio, entrega o inocente e o entrega aos outros para ser crucificado”.

O criminólogo destaca, por exemplo, como a apropriação clandestina dos elementos naturais dos quais as tribos indígenas vivem por parte das multinacionais seja um crime muito grave. Monzani no ensaio “A Mãe Terra está cansada”, escrito em quatro mãos com Emilio C. Viano e dedicado precisamente ao tema dos crimes contra o nosso planeta, destacou como “as vítimas de escolhas ambientais causadas pelo homem ainda são pouco reconhecidas como tais pela opinião pública e pelas agências de controle formal e quase não são consideradas de forma alguma pelas escolhas políticas. A sociedade, tal como está organizada hoje, não vai à procura das vítimas. Devem ser as próprias vítimas a chamar a atenção para um problema que a sociedade é incapaz de resolver por si só”.

Marco Monzani, que também é presidente da Associação Italiana de Criminologia (AIC) e membro da Board of Directors della International Society of Criminology (ISC), espera que em breve haja uma mudança, para que os mais fracos que precisam ser defendidos, não atacados, possam ser respeitados e apoiados, “para que a mãe terra se torne um lugar de todos e para todos, também em vista do bem daqueles que virão depois de nós”.

A equipe gráfica de Cube Radio

A equipe gráfica de Cube Radio

Um jovem em cada estação

A Cube Radio, emissora oficial do Instituto Universitário Salesiano de Veneza e Verona (Iusve), colaborou com o Movimento Católico Global pelo Clima na criação de uma  Via-Sacra digital para a Quaresma de 2021, acrescentando às meditações e textos das catorze estações uma série de gráficos adequados ao compartilhamento nas redes sociais. “Com este serviço esperamos ter oferecido a muitos jovens”, explica o diretor da Iusve, Pe. Nicola Giacopini, “uma oportunidade a mais para refletir e rezar durante esta Quaresma, tão marcada pelas restrições da emergência sanitária”.

Em cada estação foi inserido um jovem com roupa contemporânea, sinal da participação em primeira pessoa do sofrimento de Cristo e da proximidade com os mais frágeis. “Toda vez que a madeira da Cruz aparece”, explica Marica Padoan, coordenadora da equipe gráfica da Cube Radio, “também tem um broto verde, um sinal de esperança na Ressurreição, mas também uma referência ao Livro de Ezequiel e ao Evangelho de Lucas: ‘se é assim que o lenho verde é tratado, o que acontecerá com o seco?’. O grupo de trabalho ligado à emissora acadêmica do Iusve desenvolveu o projeto digital em colaboração com alguns professores que apoiaram a equipe no cuidado da coerência gráfica e pastoral: Luca Chiavegato, Federico Gottardo e Carlo Meneghetti, assim como o responsável pela comunicação integrada, Michele Lunardi.

A Via-Sacra foi publicada nas redes sociais da Cube Radio e no site do Setor de Ecologia e Criação do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral da Santa Sé:

https://www.humandevelopment.va/it/news/2021/via-crucis-online-la-proposta-pastorale-di-cube-radio-e-dell-ist.html