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Afeganistão, a coragem da paz e o fracasso da guerra

Por Amedeo Lomonaco/Mariangela Jaguraba – Vatican News – 27/08/2021
A tragédia afegã e o Magistério dos Pontífices: percorrer a estrada pacífica é sempre possível.

Cinco anos atrás, numa entrevista concedida ao jornal católico francês La Croix, o Papa Francisco convidou as pessoas a se perguntarem como “um modelo demasiado ocidental de democracia foi exportado para países como o Iraque, onde já existia um governo forte”, ou para a Líbia, onde existe uma estrutura tribal”. “Não podemos ir adiante sem levar em consideração estas culturas”, acrescentou ele na entrevista. Estas questões são sempre atuais, especialmente nos dias em que se tornou evidente o fracasso da tentativa americana e ocidental, no Afeganistão. A democracia pode ser exportada para estes países com armas? Ou a guerra se revela sempre uma aventura sem retorno? Olhando para a situação em que o Afeganistão se encontra hoje, mas também para a devastação a que o Iraque foi submetido, deveria ser reconhecida a prudência profética do “magistério da paz” dos últimos Pontífices. “Para fazer a paz”, disse o Papa Francisco em 2014, “é preciso coragem, muito mais do que para fazer a guerra”. É preciso coragem para dizer sim ao encontro e não ao confronto; sim ao diálogo e não à violência; sim à negociação e não às hostilidades; sim ao respeito pelos acordos e não às provocações; sim à sinceridade e não à duplicidade. Tudo isto requer coragem, grande força de espírito”.

As razões da paz

“As razões da paz são mais fortes do que qualquer cálculo de interesses particulares e do que qualquer confiança colocada no uso de armas.” Esta convicção, expressa em 1963 por João XXIII na sua Carta Encíclica “Pacem in Terris”, num momento de grande tensão internacional e reiterada pelo Papa Francisco na sua Encíclica “Fratelli tutti”, ressoa hoje forte diante do cenário afegão, à beira da guerra civil. As tribulações da nação afegã não podem e não devem resultar num novo conflito. Mesmo quando os ventos de guerra sopram, o futuro deve ser construído sobre a busca do diálogo e da paz. “Não é certamente com as bombas”, disse João Paulo II, em janeiro de 1992, ao Corpo diplomático credenciado junto à Santa Sé, “que o futuro de um país pode ser construído”. Quando estas palavras foram pronunciadas, o ano de 1991 tinha acabado de terminar no meio do estrondo das armas e imagens chocantes que mostravam populações martirizadas pela guerra na Iugoslávia.

Fazer prevalecer as razões da paz

Hoje, outras imagens angustiantes chegam do Afeganistão, onde o desespero de homens e mulheres agarrados na parte externa dos aviões que partem de Cabul, se soma ao desespero de mães e pais que deixam os seus filhos nas mãos de soldados e diplomatas estrangeiros, confiando-os ao desconhecido. Entre as sombras mais escuras e as angústias mais profundas, é possível discernir as luzes da esperança e as razões da paz. É possível, perguntou o Papa Francisco durante a vigília de oração pela paz na Síria em 2013, percorrer o caminho da paz e sair de uma espiral de dor e morte? “Sim, é possível para todos!”. “Cada um deve ser animado a olhar para as profundezas de sua consciência e ouvir a palavra que diz: deixe os seus interesses que atrofiam o coração, supere a indiferença em relação ao outro que torna o coração insensível, vença as suas razões de morte e se abra ao diálogo, à reconciliação: olhe para a dor de seu irmão e não acrescente mais dor, detenha a sua mão, reconstrua a harmonia que foi quebrada”, disse naquela ocasião.

Chega de guerra

Também o povo afegão, neste momento difícil, precisa reconstruir a harmonia, para levantar seu grito como Paulo VI na ONU em 1965: “Chega de guerra, chega de guerra! A paz, a paz deve guiar o destino dos povos e de toda a humanidade!”. As armas nunca são a solução. João Paulo II lembrou isso em sua mensagem ao presidente iraquiano Saddam Hussein em 1991: “Nenhum problema internacional pode ser resolvido de maneira adequada e digna recorrendo às armas”, escreveu ele. O pontífice polonês pediu ao presidente dos Estados Unidos para não poupar esforços para “evitar decisões irreversíveis”. As palavras do Papa Wojtyła não foram ouvidas. Em vez disso, prevaleceu a voz das armas e em 17 de janeiro de 1991 a operação “Tempestade no Deserto” começou. A opção militar acrescentou mais uma vez sofrimento e dor.

Viver em paz

O povo afegão hoje não pode ir adiante sem uma verdadeira paz que, como recordou Bento XVI em 2013, é um “dom de Deus” e também uma “obra humana”: “A realização da paz depende sobretudo do reconhecimento do ser, em Deus, uma única família humana”. Voltando o olhar para Cabul, o Papa Francisco, em 15 de agosto deste ano, fez um apelo no Angelus: “Cesse o estrondo das armas e que as soluções possam ser encontradas na mesa do diálogo. Só assim a população martirizada daquele país, homens, mulheres, idosos e crianças, poderá retornar às suas casas, viver em paz e segurança no pleno respeito recíproco”. Só assim o povo afegão poderá percorrer caminhos de paz, caminhos de fraternidade.